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Saia da caixa e domine as complexidades externas em compras

Saia da caixa e domine as complexidades externas em compras

Camila Monteiro

Texto traduzido e adaptado para o português, do Deloitte CPO Survey 2019. Veja na fonte.

As cadeias de suprimentos globais são vastas, dinâmicas e interdependentes, criando um ambiente complexo que pode provocar quebra no fluxo do negócio a qualquer momento. Por isso, nenhuma empresa – mesmo as regionais e concentradas em apenas uma cidade, estado ou país – pode dizer que é imune aos danos causados por fatores externos.

Em um mundo no qual o sucesso do setor de compras depende da habilidade em lidar com esses desafios, e ainda conseguir os melhores valores, é imperativo que os Gerentes de Compras dominem a complexidade.

A maioria dos profissionais do mercado de suprimentos estão familiarizados com a Matriz de Kraljic e suas duas dimensões: valor e complexidade. Na prática, essa complexidade externa evoluiu para se tornar um indicador mais amplo de risco. Ou seja, quanto maior for a complexidade, maiores são as chances de algo dar errado na cadeia de valor.

Somente no último ano, vários fatores de riscos adicionaram complexidades externas ao mercado de suprimentos — guerras comerciais, aumento das taxas, mudanças climáticas, incertezas sobre os resultados comerciais do mercado global e, no limite, a possibilidade de uma crise econômica e queda nos preços (figura 1). Mais recente, podemos adicionar o impacto do covid-19.

Figura 1 – Recessão econômica e deflação dos preços aparecem como  maior fator de risco enfrentado pelas empresas
Fonte: Deloitte Global CPO Survey, 2019

Atacando a complexidade comercial e o poder dos grandes fornecedores

O risco real de abastecimento surpreendeu a pesquisa deste ano ao aparecer como o segundo fator mais citado (por 37% dos entrevistado). As ameaças relacionadas aos “mega fornecedores” surgiram como subproduto de anos de abastecimento estratégico e consolidação do setor. O poder do fornecedor significa maior complexidade comercial e de relacionamento, o que cria não apenas situações de risco aos preços, mas também risco na agilidade, caso o fornecedor não possa gerenciar estrategicamente as demandas. Mesmo assim, 36% das organizações pesquisadas ainda planejam continuar realizando a consolidação de gastos — sendo esta a principal estratégia de compras que essas companhias irão adotar  para os próximos 12 meses. E dois terços das empresas também pretendem aplicar as estratégias “provadas e comprovadas” de contratação de novos fornecedores, que se dão por meio de licitações e negociação de contratos com fornecedores já existentes. Em contraste, apesar de o “mestre da complexidade” se apropriar dessas estratégias, ele também busca diminuir os riscos e os custos ao reduzir a complexidade apresentada, por meio do processo de otimização SKU (opção de 56% das organizações de alto nível, em contraste com 25% das demais empresas aqui estudadas) e por meio da melhoria de especificação (40% das organizações de alto nível, em contraste com 24% das demais empresas aqui apresentadas).

Muitos Gestores de Compras enxergam esses eventos  “de fora pra dentro” como algo já esperado em ambientes de alto risco. Mas, independente disso, 61% dos entrevistados relataram a sensação de que o risco aumentou nos últimos 12 meses (figura 2). Ainda assim, ter familiaridade com esses tipos de riscos não necessariamente se traduz em confiança para gerenciá-los.

Figura 2 – Para a maioria dos Gestores de Compras os riscos relacionados ao setor aumentaram nos últimos 12 meses
Fonte: Deloitte Global CPO Survey, 2019

Comparado com 53% dos mestres da complexidade (organizações de compras com desempenho de alta performance e que lidam com ambientes altamente complexos), apenas 37% dos Gestores de Compras entrevistados se sentem “preparados” para gerenciar o risco externo (figura 3).

Figura 3 – Qual o nível de preparação dos Gestores de Compras para lidar com grandes riscos?
Fonte: Deloitte Global CPO Survey, 2019

Em um ambiente de incertezas e de desaceleração econômica, as taxas assumem o protagonismo para 33% dos gestores consultados. O medo de uma recessão está presente na mente de muitos Gestores de Compras que, comparado com pesquisas anteriores, pela primeira vez, a colocaram à frente de outros fatores normalmente listados.

Embora as discussões sobre protecionismo e guerras comerciais possam ter dominado o assunto no mercado em 2019, não tem havido nenhuma migração para o fornecimento localizado. Por mais de uma década, fabricantes progressistas desenvolveram uma cadeia de suprimentos mais doméstica e com foco regional, a fim de torná-la mais veloz, flexível e redundante; e as recentes guerras comerciais apenas forçaram uma mudança na diversificação de fornecedores, em vez de incentivá-los a redesenhar suas redes apenas do lado de suas ofertas.

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Uma vez que os níveis de riscos continuam elevados, as equipes de compras podem, no entanto, usar os processos que sofrem, devido a tais complexidades, para promover uma mudança dentro da própria empresa, com o objetivo de lidar com as consequências desse sofrimento e, potencialmente, economizar algum dinheiro. Mas esse não é um esforço simples e isolado. Para ser capaz de conseguir uma vantagem sustentável, as empresas precisam, continuamente, analisar e digitalizar suas cadeias de suprimentos, a fim de torná-las menos arriscadas e mais preparadas contra eventos planejados ou não.

De acordo com a pesquisa da MIT Sloan Management Review, o cenário desejado é aquele em que a cadeia de suprimentos de uma organização seja capaz de pivotar a partir de análises em tempo real e de processos flexíveis de tomada de decisão.  A evolução da compra de matéria-prima é um exemplo disso, com a capacidade de avançar rapidamente para atividades, como fazer um hedge em commodities, Internet das Coisas (IoT), análises avançadas e modelagem de custos, conferindo às empresas uma vantagem competitiva.

Então, quais os próximos passos para os Gestores de Compras melhorarem os seus domínios sobre o ambiente externo? Confira agora as possibilidades:

  1. Desenvolver manuais e planos de contingência para lidar com os riscos mais urgentes. Quer se trate de incertezas comerciais globais, aumento da pressão tarifária ou desastres naturais, os riscos externos sempre irão surgir em momentos inconvenientes. Ser proativo é um comportamento essencial que deve ser adotado pelos Gestores de Compras, começando por uma avaliação honesta sobre a exposição da empresa aos riscos e, em seguida, desenvolver manuais para lidar com eles. Algumas perguntas que devem ser feitas:
    • Quais são as principais lacunas em nossa cadeia de suprimentos e como elas podem ser resolvidas em uma eventual quebra do fluxo?
    • Quais indicadores precisamos rastrear para avaliar a probabilidade de cada risco se concretizar (ex.: variação de câmbio) e, caso isso aconteça, quais ações serão tomadas?
    • Como cada risco impacta nossa empresa em termos de pessoas, tecnologias e custos?
    • Com que rapidez podemos responder às mudanças no ambiente, sejam elas previstas ou imprevistas?
  2. Promover a diversificação na base de fornecedores para reduzir a exposição ao risco. Os Gerentes de Compras devem avaliar a cadeia de valor em que sua empresa está inserida para determinar como aumentar a segurança do negócios e dos relacionamentos comerciais. Se as operações da empresa foram anteriormente transferidas para o exterior, os Gerentes de Compras podem considerar se há oportunidades no mercado para trazer de volta e atuar localmente. Com isso, além de economizar dinheiro, ele também reduz a exposição da empresa ao risco. Além do mais, mudanças estruturais destinadas a diversificar a base de fornecedores podem ajudar a reduzir o poder de barganha dos grandes fornecedores.
  3. Seja digital. Explore o potencial de soluções de gerenciamento de risco da cadeia de suprimento. Embora o gerenciamento de riscos seja uma prioridade crescente no setor de compras, de nada adianta se o gestor insistir em adotar ferramentas ultrapassadas para atacar o problema. O mercado atual já dispõe de soluções de  Procurement-to-Pay (P2P), que são capazes de mapear uma rede de fornecimento completa (que ultrapassam o relacionamento com apenas os maiores ou mais famosos fornecedores). Essas soluções levam em conta vários fatores que podem ser usados para fazer uma avaliação honesta da base de suprimentos de uma empresa; além de fornecer informações para o planejamento de minimização dos riscos externos em um ambiente dinâmico.

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